Marcia Belmiro e Geronimo Theml fizeram um webinário juntos. Os dois mastercoaches falaram sobre o tema “Dores silenciosas que consomem nossas crianças”. Confira aqui os melhores momentos deste encontro:

“Há casos muito visíveis de que algo vai mal com a criança: ataques de birra, notas baixas, escapes de xixi após o desfralde, brigas frequentes com o irmão. No entanto, é difícil perceber algum problema na criança que vê televisão quietinha, tem notas boas e come bem. Muitas vezes os pais não percebem porque é difícil perceber mesmo quando tudo parece estar na mais perfeita ordem. As dores silenciosas que as crianças sentem são como as doenças silenciosas: quando a gente vai ver, já tomaram uma grande proporção. Como identificá-las antes que isso aconteça? Que comportamentos as crianças apresentam? Como lidar com essas situações?”

“Vamos falar sobre três dores silenciosas da criança. A primeira: insegurança. A criança se sente incapaz de se expor. Ela talvez gostaria de participar da feira de ciências e mostrar o que aprendeu, mas não consegue. De maneira geral, a criança não demonstra isso. É muito raro a pessoa nessa idade ter clareza dessa dificuldade e de falar sobre isso por conta própria, mas quando isso não é cuidado, há o risco de se arrastar pela vida adulta. E o fato de não ser cuidado não tem a ver com falta de amor dos pais, eles simplesmente não percebem que há algo errado.”

“A minha orientação é: mantenha sua sensibilidade aguçada para captar isso. Porque a criança sutilmente demonstra alguns comportamentos de que algo não vai bem. Por exemplo, vai falar e dá uma gaguejada, para no meio da frase, ou evita ir a certos lugares onde vai ficar exposta. Mas não fala abertamente sobre isso. No Método KidCoaching, o pai, a mãe ou o professor simplesmente conversa com essa criança, mas é uma conversa diferente.”

“A maneira de abordar precisa ser cuidadosa. Alguns adultos, com as melhor das intenções, falam coisas como: ‘Que bobagem, aqui todo mundo gosta de você, pode falar o que pensa. Ela não pode falar, pessoal?’ Aí essa criança se sente mais desconfortável ainda, pois vira o foco das atenções. Em vez disso, em uma conversa individual, o cuidador pode dizer algumas coisas que percebeu. Ex.: ‘Sabe aquela hora que você estava falando e parou, tive a impressão de que queria falar mais alguma coisa. Você conseguiria me dizer o que é?’ Quando você cria uma vinculação bacana com a criança, ela se sente à vontade para dizer: ‘Eu queria falar sobre X, mas achei que as pessoas não iriam me ouvir.’ Quando você está a sós com a criança e se coloca não com crítica ou julgamento, mas com uma pergunta, a criança se sente mais confortável. É muito importante perguntar: ‘Como você se sentiu naquela hora?’ Ela pode responder: ‘Fiquei com vergonha, com medo.’ E aí continue: ‘E o que você pensou naquele momento em que estava com medo?’ Lembrando que essa é uma conversa coaching, sem julgamento, sem ‘mas é claro que você podia falar, não tem nenhum problema’. Esse tipo de conversa, que a gente acha que vai ajudar, só inibe mais. Ao passo que quando a gente conversa e interage, não só ajuda a criança a identificar o que está acontecendo dentro de si, mas também a se apropriar daquilo. Ela começa a se dar conta de que isso está acontecendo consigo, e a partir daí pode agir de maneira diferente.”

“Os seres humanos nascem com o sistema límbico completamente desenvolvido. O sistema límbico, além de proporcionar uma série de reações naturais do corpo, como a respiração, também é responsável pelas emoções. Já o neocórtex vai se desenvolvendo ao longo da vida (alguns autores dizem que só alcança a maturidade aos 29 anos). É ele que dá à pessoa a capacidade de ter critérios de análise e de compreensão. Então, na idade adulta, o indivíduo consegue ter critérios do tipo ‘está acontecendo isso comigo’, ‘estou percebendo que me sinto assim’. A criança ainda não tem a consciência do que lhe acomete. Somos nós, adultos, que, por meio de boas perguntas e de uma abordagem acolhedora, a auxiliamos a identificar essas dores silenciosas que vive, e que muitas vezes são percebidas como uma grande confusão, de uma forma conflitiva e dolorosa, pois não conseguem compreender o que se passa.”

“Falar assim, sem julgamento, com os filhos, é uma quebra de paradigma. A maior parte das vezes a nossa dificuldade em ter esse tipo de conversa com nossos filhos é que também temos grande dificuldade de nos dizer aquilo que sentimos, de associar o cérebro que pensa ao cérebro que sente. Ou seja, também temos dificuldade de falar a linguagem das emoções com nossos filhos, de ajudá-los a serem seres mais integrados, de modo a se tornarem jovens mais prontos para lidar com as dificuldades, e futuros adultos capazes de lidar com o mundo.”

A segunda dor é quase uma decorrência da primeira: o isolamento social. A criança não consegue ter amigos. Ela quer chegar perto, mas tem vergonha, não sabe como vai ser percebida pelo grupo. Em geral se comunica com um ou duas crianças, tão tímidas quanto ela. Costuma falar baixinho, não quer chamar atenção para si. O natural da criança é querer estar junto das outras crianças. Tem algumas que são mais reservadas, assim que chegam em um local novo ficam afastadas um pouco até se ambientarem, mas depois se entrosam. E outras que não conseguem socializar. Essas podem estar vivendo uma dor silenciosa.”

“Como saber se existe algum problema? Conversando com a criança. O cuidador sempre pode acolher e legitimar o sentimento da criança. Sem julgamento, num diálogo coaching. Ex.: ‘Tenho percebido que no recreio você fica sempre sozinho. É isso mesmo que você deseja? Se não, como gostaria que fosse?’”

A terceira grande dor, que muitas vezes é consequência das outras duas, é a dor do bullying. Hoje, além do bullying que já conhecemos, há o bullying cibernético, que de todos é o mais cruel e perverso. Mas vou falar do bullying rotineiro, na escola, no play do prédio. Imagina essa criança: insegura, distanciada do grupo e sendo criticada. Muitas vezes não é por mal, mas os cuidadores não notam. A criança está comendo bem, tirando boas notas, não está doente.”

“Em relação a esse bullying a escola tem condições de tomar atitudes, e os KidCoaches têm atuado muito nisso. No bullying, não sofre só a criança que é alvo, aquela que pratica também sofre. Por mais estranho que possa parecer, esta é a única forma que ela encontra de se relacionar afetivamente. É o modo que consegue estabelecer proximidade. E de certa forma dá certo, porque ela é vista, falam sobre ela, a temem. Mas essa forma de se relacionar é prejudicial, causa sofrimento. Por isso, a criança que faz bullying também precisa ser cuidada.”

“Quais são os principais sintomas da criança que está sofrendo bullying? Ela acorda tarde, não consegue ir à escola, não quer ir à festinha do colega, diz que não gosta de festa. E isso não condiz com a realidade, mas o receio que ela tem de ir à festa e continuar a ser ferida. Como ajudar? Empoderando a criança, ajudando-a a assumir para si não que é culpada, mas que pode reverter esse quadro. Em geral, a vítima de bullying é a criança mais magrinha, ou mais gordinha, ou aquela que se sai muito bem em matemática, mas não sabe jogar bola. Pode ser ainda aquela mais sensível, que chora muito. Essas características, em vez de defeitos, são especiais, únicas, próprias dela, e a criança pode aprender a amar-se e aceitar-se. Quando isso acontece, o bullying não a machuca mais. Ela sabe reagir, se defender, de forma respeitosa e saudável.”

Para assistir ao webinário “As dores silenciosas de nossas crianças” completo, acesse: https://www.youtube.com/watch?feature=youtu.be&v=Q2X9cSUjCsQ&app=desktop

                      

Marcia Belmiro
Marcia Belmiro

Fundadora e diretora técnica da Rio Coaching. Graduação em Psicologia, Especialização em Recursos Humanos pelo IBRAE – FGV, Personal Life Coaching e Executive Coaching, Master Coach pelo Behavioral Coaching Institute. Certificação nos instrumentos de Assessments DISC, PEAKS, SOAR e Birkman, Certificação em Alfa Assessement Coaching pela Worth Ethic Corporation, MBA em Coaching e Pós graduação em Neurociências pelo IPUB – UFRJ, Formação em Biodança, Sociopsicomotricidade, Teoria Cognitivo-Comportamental e Constelação Familiar. Atuando há 38 anos nas áreas de Educação, Clínica Psicológica, Recursos Humanos e Coaching, formou mais de 3.000 coaches no Brasil e desenvolveu mais de 10.000 líderes. Sólida experiência como Coach de executivos e Mentora de coaches. Mais de 12.000 horas na criação e aplicação de workshops, palestras, cursos de desenvolvimento de líderes, programas motivacionais e transformacionais. Co-autora dos livros “A Bíblia do Coaching” e “O Máximo do Mínimo”. Autora e Coordenadora técnica do livro “Empoderar para Transformar”. Criadora do Método KidCoaching® para crianças e Co-criadora do Método GrowCoaching® para adolescentes.