Chegou o primeiro dia de aula da vida do seu filho. Um misto de emoção e angústia povoa seu coração de mãe. A possibilidade – até então inédita – de almoçar com calma, com direito a um café quente depois, disputa espaço com a bigorna na cabeça em que está escrito, em letras vermelhas, “ninguém cuida dele como eu”.

Essa insegurança é normal, especialmente quando se trata de um bebê que ainda não fala nem anda. Mas dependendo de sua intensidade, essa preocupação pode ser prejudicial tanto para a criança quanto para a mãe.

De quem é mesmo essa dor?

Muitas vezes a mãe projeta, inconscientemente, as dificuldades da própria história – as situações em que se sentiu abandonada, insegura – na vida do filho. Numa situação dessas, há uma probabilidade maior de a criança se mostrar ansiosa na escola.

Para auxiliar a criança a passar por esse momento tão marcante da melhor forma possível, o ideal é que a mãe possa equacionar seus próprios traumas, se libertando de suas angústias infantis. Assim ela poderá lidar de uma maneira mais madura com as angústias de seu filho, que podem ser diferentes das suas, ou até nem existirem.

Fusão mãe-filho

Com a maternidade, a vida da mulher-mãe se funde psiquicamente à do filho durante a gestação e os primeiros meses de vida do bebê. No entanto, aos poucos é saudável e necessário que haja uma cisão entre a identidade da mãe e a do filho. Quando essa cisão não é bem-sucedida, a mãe pode sentir o sofrimento da criança como se fosse seu, dando uma dimensão maior a situações corriqueiras.

Por exemplo, o pequeno é machucado por um coleguinha na escola. Nesse caso de fusão ainda intensa, a mãe pode entender isso como uma questão pessoal, um ataque cruel a seu filho. Quando isso acontece, fica bem mais difícil resolver a questão. É quando a mãe sente uma necessidade imensa de “proteger o filho do mundo” que a criança se torna mais indefesa, ao não poder assumir responsabilidade pela própria vida.

Claro que não estamos falando que um bebê vai argumentar com outro bebê na creche sobre uma mordida ou tapa recebido, mas aos poucos é possível, sim, ir dando autonomia para a criança se defender do que a incomoda. Esta é uma das funções mais importantes da escola: para além da instrução formal, promover a socialização do indivíduo, aumentando sua independência.

Chuva de críticas

A insegurança da mãe também tem uma forte motivação social. Parece que o tempo todo tem alguém pronto a iniciar uma frase que invariavelmente começa com “mas você…”: “mas você não devia trabalhar fora”, “mas você tinha que dar mais atenção a seu filho, já que é dona de casa”, “mas você vai deixar o menino na escola o dia todo?”, “mas você só vai matricular ela na escola aos 3 anos?”, e por aí vai.

Apesar de ser difícil, a mulher pode ser capaz de não se deixar afetar pela opinião alheia. Para ajudar a aumentar sua segurança interna, lembre-se de que você escolheu uma instituição séria, na qual confia. Além disso, tenha clareza e segurança sobre sua relação com seu filho, e saiba que o mais importante não é passar o dia todo com o pequeno, mas dar a ele momentos de qualidade, com afeto e presença genuínos.

Como pode ser mais leve?

A situação está difícil? Confira algumas orientações para fazer da ida para a escola um rito de passagem mais leve:
– A honestidade emocional é importante. Você não precisa fingir que está tudo bem. Admita que está triste, valide a tristeza do seu filho, mas com a certeza de que vocês vão passar por isso juntos. Até porque se você disser uma coisa e sua linguagem corporal disser o contrário, a criança vai perceber.

– Faça combinados com seu filho e garanta que serão cumpridos (pela criança e também por você). Não saia de fininho nem diga “vou ali e já volto” se você só vai buscar o pequeno dali a oito horas. Embora as crianças pequenas ainda não saibam ver horas, você pode explicar de um jeito que seu filho entenda. Por exemplo: “Você vai brincar no parquinho, depois vai almoçar, vai dormir, vai fazer atividades na sala, e venho te buscar depois do lanche.”

– Não use a escola como prêmio, tampouco como punição. Por exemplo: “Se você almoçar tudo, vai para a escola”; “Se você se comportar mal, te levo para a escola no fim de semana”. Além de passar a mensagem errada sobre a função da escola, mesmo que a criança não almoce ela tem de ir à aula, e no fim de semana o colégio não abre (ou seja, seu filho vai perceber logo que essas ameaças são mentira).

                      

Marcia Belmiro
Marcia Belmiro

Fundadora e diretora técnica da Rio Coaching. Graduação em Psicologia, Especialização em Recursos Humanos pelo IBRAE – FGV, Personal Life Coaching e Executive Coaching, Master Coach pelo Behavioral Coaching Institute. Certificação nos instrumentos de Assessments DISC, PEAKS, SOAR e Birkman, Certificação em Alfa Assessement Coaching pela Worth Ethic Corporation, MBA em Coaching e Pós graduação em Neurociências pelo IPUB – UFRJ, Formação em Biodança, Sociopsicomotricidade, Teoria Cognitivo-Comportamental e Constelação Familiar. Atuando há 38 anos nas áreas de Educação, Clínica Psicológica, Recursos Humanos e Coaching, formou mais de 3.000 coaches no Brasil e desenvolveu mais de 10.000 líderes. Sólida experiência como Coach de executivos e Mentora de coaches. Mais de 12.000 horas na criação e aplicação de workshops, palestras, cursos de desenvolvimento de líderes, programas motivacionais e transformacionais. Co-autora dos livros “A Bíblia do Coaching” e “O Máximo do Mínimo”. Autora e Coordenadora técnica do livro “Empoderar para Transformar”. Criadora do Método KidCoaching® para crianças e Co-criadora do Método GrowCoaching® para adolescentes.